Estranho incidente numa farmácia


A notícia na imprensa passou despercebida e pouco adiantava, e as teorias de interpretação do caso pelos especialistas apresentam-se ainda caprichosas, dando lugar a muitas reticências.
Embora nada tenha sido roubado, custa a crer que a coisa tivesse sido levada a cabo por um único intruso e também não parece ter sido obra de drogados, pelo menos os comuns.
O certo é que a história continua mal contada e, segundo consta aqui no bairro, os vídeos de vigilância mostram imagens confusas nos monitores da empresa de segurança. No exterior da farmácia nada se passaria: estaria tranquilo e escuro e, como normal, a luz acesa indicaria que a farmácia estava de serviço. Na zona do balcão a cena seria a previsível: um empregado atendia uma pessoa.
Mas terá sido na parte interior, entre o escritório e o armazém, que tudo se apresentaria mais complicado.
Tudo leva a supor que alguém, aproveitando a entrada do cliente, tenha penetrado sem o jovem técnico dar por isso. Diz-se que este teria deixado uma revista de banda-desenhada num sofá onde costuma descansar nos intervalos das chamadas. E haveria mais revistas do género no cacifo aberto, bem como um livro de arte e alguns objetos pessoais.
De facto, no écran parece que se via o estofo do sofá a ser amassado, como se alguém lá estivesse a recostar-se. Depois uma garrafa de água fazia um trajeto no ar e as bolachas desapareciam. Em seguida um livro voava também com as páginas a passarem depressa, como se o vento as lesse.
Nessa altura o vídeo terá tido uma interferência qualquer e a imagem parou cheia de deformações, mas presume-se que, logo a seguir, vento idêntico ter-se-á apossado das outras revistas e livros, desfolhando-os numa fúria até que, depois de duas voltas no ar, se imobilizaram no chão, que fixou cheio de papéis e migalhas. No inventário da polícia ficou escrito que havia páginas rasgadas com reproduções de obras de artistas e houve o cuidado de anotar os nomes ainda legíveis nos fragmentos: Andy Warhol (o Dick Tracy, imagine-se, que oportuno...), Roy Lichtenstein, Jean-Michel Basquiat, Manuel Ocampo e Paula Rego (figuras de saias pretas de ballet, dizia no relatório, sem especificar mais). Havia ainda, intacto, um caderno com anotações várias e desenhos, incluindo listas de heróis da banda-desenhada. Tinha na capa um nome, Pedro Almeida, artista que os investigadores procuram agora, como vítima de roubo, eventual testemunha ou mesmo suspeito no caso.
Convém que se diga ainda que a televisão minúscula estava ligada sem som num certo canal que passava bonecos.
Depois disso terá sido a vez do antigo laboratório, agora armazém, de ser remexido estante a estante, gaveta a gaveta, até tudo ficar num caos. No tampo de mármore do velho balcão dos preparados farmacêuticos, ultimamente apenas usado para fazer os embrulhos de Natal, parece que ficaram potes e frascos com produtos irreconhecíveis em parte oriundos do pequeno armário-museu do proprietário, embalagens de medicamentos mais recentes, carteiras de comprimidos. Um almofariz tinha rebolado e entornava um pó escuro, uma espátula servia de marcador num antigo manual farmacêutico, numa página sobre corantes.

Aí, então, estaria a cena mais estranha: parece que havia por todo o lado papéis com desenhos ou pinturas que alguém teria trazido ou feito no local, cheios de bonecos em cores estranhas. Os cheiros intensos e os restos entornados no chão indicariam o uso de tinturas várias, de cochinilha, iodo, mercúrio-cromo, e outras substâncias por analisar, como se fossem experiências de um concurso de druidas.
Mas parece que foi na superfície de cobre do velho autoclave em desuso, caído no chão, que os investigadores detectaram, através de meios sofisticados de ampliação digital, o único sinal de presença de alguém: uma silhueta negra fugidia que fazia lembrar o Batman, o Fantasma, ou outra dessas figuras de super-heróis que se imaginam como remédios para o mundo, que bem precisado está.
O processo continua em aberto.
O jovem técnico não consegue explicar o incidente.
E eu, claro, sou apenas uma vizinha. Não dei por nada.
Isto é o que se diz.


Isabel Sabino
Setembro 2012


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