Pedro Almeida e o sonho de Coleridge


No apogeu do período romântico, Samuel Taylor Coleridge criou uma das suas mais impressivas imagens poéticas: um homem em sonhos atravessa o paraíso, nele colhe uma flor e vê ao acordar que a tem, real e perfumada, nas mãos.

A humanidade sempre precisou de sonhos e de mitos. A criança tem nos pais os seus primeiros ídolos. Mas, como lembrou Oscar Wilde: “começamos por amar os nossos pais, mais tarde julgamo-los e raramente lhes perdoamos”. Por isso, preferimos os mitos de ficção; não nos desiludem. Iguais a si próprios, basta uma lata de espinafres para Popeye recuperar a sua invencibilidade ou uma simples troca de indumentária para que o tímido jornalista Clark Kent se transforme em Super-homem. Porém, contrariamente a vários casos de figuração pop, a Pedro Almeida não interessa, através da exaltação da cor, sublinhar os atributos de poder de Homem Aranha, Batman, Homem de Ferro, Hulk, Popeye ou Super-homem. Mediante um processo de grande originalidade, com recurso ao uso de materiais voláteis, o artista capta a evanescência desses poderes em pinturas efémeras, progressivamente descoloridas e esmaecidas. Ao invés de glorificar domínios, expõe vulnerabilidades. Sob o nosso olhar incrédulo, estas belíssimas obras, aparentemente ternas, assumem contornos apocalípticos: despojam inexoravelmente os nossos super-heróis de todos os vestígios de força.

Daí, afirmarmos que Pedro Almeida personifica o famoso achado poético de Coleridge: o pintor atravessa em sonhos o universo dos super-heróis, é tocado pelos seus poderes e vê ao acordar que tem um dom especial nas mãos. A rara capacidade de conceber, através de representações icónicas do desvanecimento de poderes, metáforas de um mundo em erosão que atinge fundamentos e mitologias. O desgaste de uma civilização que não poupa sequer os seus super-heróis.


Luís de Almeida D’Eça


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